Mostre-me, e eu poderei lembrar-me.
Envolva-me, e eu entenderei”
Confúcio, 450 A.C.
Há alguns anos atrás (não muitos), a escola era um processo educativo para a vida. Onde para além de se aprender a ler, a escrever e a fazer contas, a professora tinha um papel relevante na educação dos seus alunos. A grande maioria os pais colocavam a totalidade deste processo nas mãos da Sr.ª Professora e se fosse necessário esta que não se coibisse de dar umas “palmadas para os endireitar”.
Eram os tempos das galinhas, sacas de batata e cestos de ovos, que zelosamente os progenitores dos educandos faziam questão de oferecer em datas especificas a quem lhes cuidava das crias. Eram épocas difíceis, onde a grande maioria da população era analfabeta ou então não tinha sequer o ensino primário completo. Poucos eram aqueles que conseguiam chegar ao secundário e raríssimos os que frequentavam as universidades. Meninas de um lado e meninos do outro, o hino nacional e um pai-nosso eram pedra de toque para a preparação da vida.
A Sr.ª Professora era uma autoridade moral, não só pelo uso da palmatória, mas também pelo papel que a própria sociedade lhe atribuía. É comum ainda hoje ouvirmos que naquela altura è que se aprendia, que a antiga 3ª classe valia mais do que o 9º ano actual. Claro que saber a totalidade das linhas-férreas que existiam no continente, o nome de todos os rios, serras, planaltos e ilhas, assim como as capitais das províncias ultramarinas, obrigava a um processo decorativo hercúleo.
Na sua grande maioria, atrevo-me a dizer quase a sua totalidade, esses alunos de excelente memória, não passaram de trabalhadores fabris, camponeses, ou os mais afortunados, no topo da sua carreira, de caixas num banco. Mas o sistema de ensino era respeitado e visto não como um meio, mas como um fim para a vida.
Trinta anos passaram e tudo mudou. A importância da Sr.ª Professora desvaneceu-se, o seu papel de relevância societário terminou, a escola passou a ser um meio para atingir um fim, se bem que nos últimos tempos, passou a ser unicamente um meio para qualquer coisa que não se sabe muito bem o que é.
Começaram a ser professores toda uma multidão de recém licenciados que não tendo saídas profissionais, viam no ensino o garante do seu sustento. Não era importante saber algo sobre o que leccionavam, bastava um canudo, uma prova de admissão e era automática a sua aceitação. A grande diferenciação começou com o aparecimento do ensino privado, onde na sua maioria o corpo docente é criteriosamente seleccionado, assim como a condição socio-económica dos pais tem um papel relevante, devido ao custo da propina.
Muitos no entanto devido ao status que era reflectido sobre os pais dessas crianças, muito pouco se importavam com a metodologia do ensino.
Recorda-me uma vez, quando questionei a directora de uma dessas escolas sobre qual o método aplicado na aprendizagem, se o considerava mais próximo dos princípios de Piaget, Lewin, Moscovici, Ferne…? Ela retorquiu que seguia os princípios do método de São João Bosco, compreendo, afirmei….
Importa também salientar que uma avaliação do sistema de ensino, equiparando colégios com 100 alunos seleccionados com outros que possuem mais de 1000 indiscriminados, não será a mais correcta, mas indubitavelmente é uma caminho, é mais uma ajuda.
Na análise à avaliação publicada ontem há que ressalvar algumas curiosidades, nos primeiros 10 lugares, só há uma escola pública, e os colégios privados melhores classificados são exclusivamente de rapazes ou de raparigas e com a “assistência espiritual” da Opus Dei.
Singular, a antiga Sr.ª Professora emerge no século XXI, estilizada, mais moderna, mas com a mesma segregação entre os sexos, o hino nacional e o pai-nosso.
No entanto o projecto educativo está para além das médias, estas não são uma meta, não podem ser um fim. O projecto educativo terá que ser mais um objectivo civilizacional, societário, do que um pódio de medalhas. Mas para isso é fundamental alterar o âmago dos decisores e construtores do sistema. Não podemos ter anos lectivos, abjectos, armazenistas de matéria, mas sim anos educativos, “socializantes”, “qualificantes”, “vivenciais”.




